por
Arthur de Faria
Como
é que um cara lá do meio do mato, de Santiago do Boqueirão,
me sai sambista? foi a pergunta que o então jovem
radialista gaúcho Paulo Deniz
fez pro seu colega e humorista Carlos Nobre.
O ano era 54 e o Nobre puxava o Deniz prum canto dos estúdios
da Rádio Gaúcha pra apresentá-lo ao
farmacêutico-prático Túlio
Simas Piva. O cidadão já era um habituê:
volta e meia se tocava de Santiago pra mostrar pra turma boêmia
da Capital seus sambas absolutamente pessoais, com aquela batida
que fez lenda. Desta vez era Tem Que Ter
Mulata, que seria sucesso quase instantâneo. Deniz
o arrastou pro ensaio do Norberto Baldaulf & Seu Conjunto
- o mais fodão dos conjuntos melódicos gaúchos
de então - e acertou ali mesmo a primeira gravação
da música. Não deu outra. Tem
Que Ter foi regravado até em russo. Certa feita,
Túlio passeava por Montevidéu numa tarde de Carnaval
quando passou uma murga - que é o bloco de carnaval lá
deles -, feliz da vida, mandando o maior candombe: tiene que tener
mullata, tiene que tener mullata...
No ano seguinte - 55 - Túlio reuniu as tralhas, pegou
os cacarecos e deu no pé. Com família e tudo, se mudava
de Santiago pra Cidade Sorriso do Sul
do Brasil. Porto Alegre,
se já não era mais a cidade que, nos anos 10, quase
rivalizou com Buenos Aires em movimentação musical,
ainda assim resplandecia uma Pasárgada de possibilidades
para um já nem tão jovem compositor. Logo estava instalada
- na Rua da Praia quase esquina com Dr. Flores - a Drogaria
Piva. Em pouco tempo ferveria como ponto de encontro
vespertino da boemia da terra.
Naquela época, era comum cantores de renome viajarem pelo
país atrás de músicas inéditas pra gravar.
E o samba batucada de Túlio garrou fama.
Elza Soares, Germano Mathias, Carmélia Alves, Francisco
Petrônio, Luiz Vieira, Noite Ilustrada, Caco Velho
e muitos outros nomes do créme de la créme do samba
dos anos 50 gravaram músicas dele. Três nomes bastariam:
o lendário Conjunto Farroupilha, os eternos Demônios
da Garoa e uma guriazinha vesga, risonha e tímida, espécie
de mascote da turma do Túlio, onde todos já a apontavam
como a futura maior cantora brasileira: Elis Regina Carvalho
Costa.
Um grande momento veio em 68. O mais legal não foi ter vencido
por aclamação o SEGUNDO FESTIVAL
SULBRASILEIRO DA CANÇÃO POPULAR, com Pandeiro
de Prata. Os três bis também não
foram nada. De levar a alma foi o arrastão com que os jovens
da platéia o levaram carregado nos ombros pra fora do teatro.
Como grande vencedora daqui, a música foi para o Rio, participar
do festival O Brasil Canta no Rio,
mas não teve o mesmo sucesso.
Na década seguinte - a de 70 -, Túlio e seu
inseparável Lúcio do Cavaquinho
montaram dois bares que marcariam a noite da cidade: o Gente
da Noite e o Pandeiro de Prata.
Muito sucesso, dinheiro que é bom nada. Os donos ficavam
compondo sambas no escritório ou tocando palco enquanto os
gerentes metiam a mão no caixa. Mas não importava.
As alegrias eram diárias. Foi nessas casas que Túlio
compôs a maior parte dos seus 500 sambas. Foi lá
que os netos, filhos da única filha, Vera
- estrearam na música. Rodrigo,
que tinha doze anos na estréia, hoje é compositor
e cantor e mora em Florianópolis. Rogério,
que tinha dez, hoje é um dos maiores bandolinistas do Brasil,
ainda que pouca gente saiba. O grande problema e a grande alegria
de Túlio é que, além de compositor, cantor
e violonista, ele sempre foi muito marido, pai, avô. Quando
veio de muda pra Porto Alegre já não era nenhuma criança.
Não teve vontade, necessidade ou coragem pra arriscar a vida
no centro do País. Foi ficando. Pagou o preço de nunca
ter estourado nacionalmente, não ter virado um Herivelto
Martins, um Luis Antônio. Mas pelo menos morreu
feliz, cercado de gente de todas as idades, que as tinha todas.
Ao lado de Dona Eloíza,
mais de meio século de casamento e franca tietagem. No meio
dos troféus, imensamente orgulhoso dos netos, dos velhos
amigos... Infelizmente não chegou a participar do desfile
da Praiana, escola do grupo A de Porto Alegre, cujo tema era Lua
e Sol, Cenário Inspirador de um Poeta: Túlio Piva.
Mas o Rogerinho e o Rodrigo tavam lá, Túlio, tocando
e cantando junto ao carro de som, desfilando no Carnaval de uma
Porto Alegre já quase irreconhecível a seus olhos
de velho boêmio.
Túlio sempre foi um guri de Santiago.
Um daqueles guris boa-gente que só o interior sabe criar.
Tudo tava sempre bom. Tanto que conseguia o milagre de ser um purista
sem ser preconceituoso. Se clamava pelo samba na batata, com pandeiro
e mulata, ao mesmo tempo não hesitava em comprar uma desgraça
de uma bateria eletrônica pra se acompanhar nos sambas que
tocava em casa. Em 1991, tive a alegria de conceber, arranjar
e tocar, com o meu grupo de então - o Bando
Barato pra Cachorro - um show-homenagem à ele,
com participação do próprio e seus netos. Como
o Bando não fazia covers, mas sim recriações
de repertório de samba tradicional, cada vez que a gente
aprontava um arranjo era aquele medo. Mas a verdade é que
Túlio vibrava com tudo, como guri com brinquedo novo. Na
verdade, e isso a gente só foi saber muito depois, ele já
guardava só com ele, em segredo, o câncer na próstata
que o levaria pro andar de cima. Ele - e só ele - sabia que
esse era seu último show. Apesar disso, ou talvez por isso,
era o mais entusiamado naquele inferno de fios, afinações
e temperamentos exaltados de 12 músicos enfiados num porão
durante três meses de ensaios. Entre o convite pro show e
o próprio, compôs mais uma dúzia de canções.
Era aquela coisa: chega, Túlio, pelo amor de Deus! Tem repertório
pra mais uns três shows! - a propósito: ele ficava
realmente contrariado quando o chamavam de 'senhor'. Mas, como eu
tava falando, a gente tinha sempre um certo medo dele estrilar com
os arranjos. Mas a caretice, a gente sempre se espantava com isso,
era na verdade nossa. Estrela Perdida,
aquela belíssima marcha-rancho, com bateria eletrônica,
flautim e guitarra baiana com distorção? Adorou. Até
que a gente resolveu arriscar mesmo e eu tranformei Sputnik
Nacional - um sambaço de 57 onde ele gozava o
recém-lançado Sputnik russo - num mambo 'espacial',
cheio de compassos alterados e dissonâncias. O velho chegou
no ensaio e ficou quieto num canto enquanto a gente passava aquele
inferno de arranjo, naipe a naipe. Na primeira passada completa,
quando ele pegou o espírito da coisa, eu olho e Túlio
está com os olhos cheios d'água. Terminada a música,
ele só diz uma frase: essa eu canto. Que saudade, Túlio
querido.